Autismo: por que cada vez mais crianças estão sendo diagnosticadas?

Autismo: por que cada vez mais crianças estão sendo diagnosticadas?

O número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) vem aumentando de forma consistente nas últimas décadas, despertando o interesse de pesquisadores, profissionais de saúde e famílias.

Dados divulgados em 2025 pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos, indicam que atualmente 1 em cada 31 crianças está dentro do espectro autista.

O índice representa uma mudança significativa em relação aos registros do início dos anos 2000, quando a prevalência era estimada em 1 para cada 150 crianças. Na década de 2010, esse número passou para 1 em cada 69.


O avanço dos diagnósticos tem alimentado um debate recorrente: o aumento reflete um crescimento real da condição ou está relacionado a mudanças na forma de identificar o transtorno?

De acordo com a pediatra Dra. Anna Dominguez Bohn, existem diferentes fatores que ajudam a compreender esse cenário.

“O aumento dos diagnósticos está muito relacionado ao avanço da ciência, com melhores ferramentas e maior compreensão do desenvolvimento infantil. Além disso, fatores ambientais e do estilo de vida moderno ainda estão sendo estudados e podem ter influência, embora não estejam totalmente esclarecidos”, afirma.

Como o autismo é diagnosticado

Ao contrário de muitas condições médicas, o autismo não pode ser confirmado por exames de sangue, testes laboratoriais ou métodos de imagem. A identificação do transtorno depende de uma avaliação clínica detalhada, baseada em critérios internacionalmente reconhecidos que analisam aspectos do comportamento e do desenvolvimento.

Segundo a especialista, o processo exige observação cuidadosa e acompanhamento ao longo do tempo. “Não existe um exame único que confirme o autismo. O diagnóstico exige uma avaliação criteriosa, feita ao longo do tempo e em diferentes contextos, observando padrões de comportamento e interação social”, explica a médica.

Essa análise considera diversos elementos do desenvolvimento infantil e busca compreender como a criança se comunica, interage socialmente e responde ao ambiente ao seu redor.

Um espectro com características variadas

Uma das principais características do TEA é sua ampla diversidade de manifestações. O diagnóstico atual está fundamentado principalmente em dois conjuntos de sinais: dificuldades relacionadas à comunicação e à interação social, além da presença de comportamentos repetitivos ou interesses restritos.

Entretanto, a forma como esses sinais aparecem pode variar consideravelmente de uma pessoa para outra.

“Cada criança dentro do espectro é única. Algumas podem ter linguagem altamente desenvolvida, mas apresentar dificuldades na interação social ou na compreensão de sinais não verbais”, destaca a Dra. Anna.

Essa heterogeneidade faz com que alguns casos sejam identificados rapidamente, enquanto outros podem permanecer sem diagnóstico por mais tempo. Em determinadas situações, especialmente nas apresentações mais leves, os sinais podem ser confundidos com outras características do desenvolvimento infantil, dificultando a avaliação adequada.

A importância da identificação precoce

Pesquisas recentes reforçam o impacto positivo da detecção antecipada do autismo. Um estudo publicado em 2025 no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry avaliou aproximadamente 5 mil crianças e concluiu que a realização sistemática de triagens para autismo durante consultas pediátricas contribui para antecipar o diagnóstico.

Os resultados mostraram que crianças submetidas a protocolos padronizados de rastreamento foram encaminhadas para avaliação especializada mais cedo, em média aos 20 meses de idade. Entre aquelas que não passaram por esse processo, o encaminhamento ocorreu por volta dos 24 meses.

Embora a diferença pareça pequena, especialistas destacam que alguns meses podem representar uma oportunidade importante para o desenvolvimento infantil.

“Essa diferença de poucos meses é extremamente relevante. Estamos falando de um período de intensa plasticidade cerebral, em que intervenções precoces podem mudar significativamente o desenvolvimento da criança”, afirma a pediatra.

O estudo também observou que a triagem favoreceu a identificação de crianças com sinais menos evidentes, que poderiam levar mais tempo para receber uma avaliação especializada.

Diagnóstico como ferramenta de apoio

Para os especialistas, a confirmação do diagnóstico não deve ser encarada apenas como a definição de uma condição, mas como um recurso capaz de orientar estratégias de acompanhamento e suporte individualizado.

“O diagnóstico não é o fim, e sim um ponto de partida. Ele permite entender as necessidades e potencialidades de cada criança, direcionando intervenções mais adequadas e promovendo melhor qualidade de vida”, conclui a Dra. Anna Dominguez Bohn.

(Com assessoria)

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