O cansaço constante faz parte da rotina de muitas mães, mas especialistas da Academia Brasileira do Sono (ABS) alertam que a privação prolongada de sono não deve ser vista como uma consequência inevitável da maternidade. A falta de descanso adequado pode afetar a saúde física, mental e cognitiva das mulheres, especialmente durante a gestação e nos primeiros anos de vida dos filhos.
Segundo a neurologista e médica do sono Andrea Bacelar, é comum ouvir relatos de mulheres que sentem que o padrão de sono nunca voltou a ser o mesmo após se tornarem mães. No entanto, ela ressalta que o organismo não se adapta completamente à falta de descanso. “O corpo não se acostuma com a privação crônica de sono. Em algum momento, ele cobra essa conta”, afirma.
A especialista explica que noites mal dormidas de forma recorrente estimulam a produção de cortisol, hormônio ligado ao estresse. Como consequência, podem surgir sintomas como irritabilidade, ansiedade e maior dificuldade para enfrentar situações cotidianas.
Os prejuízos também atingem funções cognitivas importantes. A redução do tempo de sono compromete a memória, a capacidade de concentração e o processo de tomada de decisões. “Muitas mães funcionam no modo automático, como se dessem conta de tudo, mas, na verdade, estão operando como um celular com pouca bateria. Isso impacta o trabalho, os relacionamentos e a própria saúde”, explica Dra. Andrea.
De acordo com a médica, as necessidades e os desafios relacionados ao descanso mudam ao longo das diferentes fases da maternidade. Nos primeiros meses após o nascimento do bebê, por exemplo, ela recomenda que a mãe aproveite todas as oportunidades possíveis para descansar, inclusive durante os períodos de sono da criança.
“A prioridade não é aproveitar esse momento para fazer tarefas domésticas. O sono também é essencial para a recuperação física e até para a produção adequada do leite materno”, orienta.
Antes e depois da gravidez
A otorrinolaringologista e médica do sono Tatiana Vidigal destaca que as alterações no descanso começam ainda durante a gravidez. Mudanças hormonais, físicas e emocionais podem favorecer despertares frequentes, desconfortos e aumento da ansiedade ao longo da gestação.
“É fundamental investigar e tratar ronco e apneia do sono durante a gestação, principalmente no último trimestre, para reduzir riscos e proteger a saúde do bebê e da mãe”, alerta.
Após o parto, a necessidade de acordar diversas vezes ao longo da noite para atender o bebê costuma intensificar a fragmentação do sono. Segundo a especialista, esse padrão de descanso interrompido não provoca apenas fadiga física.
“A mãe acorda várias vezes durante a noite e passa a conviver com um sono insuficiente e interrompido. Isso não afeta apenas o cansaço físico, mas também o humor, a memória e até o metabolismo”, explica Dra. Tatiana.
As médicas ressaltam que o organismo materno passa por adaptações biológicas que aumentam o estado de alerta em relação às necessidades do bebê. Entretanto, quando a privação de sono se prolonga sem apoio adequado, os impactos podem se tornar mais significativos.
“Cuidar do sono materno não é luxo. É uma intervenção importante em saúde mental, cognitiva e física”, conclui Dra. Andrea Bacelar.
Apesar das dificuldades enfrentadas nesse período, as especialistas afirmam que algumas medidas podem contribuir para melhorar a qualidade de vida das mães. Dividir responsabilidades, respeitar os sinais de cansaço do corpo e criar espaço para o descanso são estratégias que podem ajudar a minimizar os efeitos da privação de sono.
Segundo elas, dar atenção à própria saúde e buscar apoio quando necessário beneficia não apenas a mãe, mas toda a dinâmica familiar.
(Com assessoria)

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