Levantamento do Sindicato dos Policiais Penais do Estado de São Paulo (Sinppenal) aponta um agravamento dos problemas de saúde mental entre os servidores do sistema prisional paulista.
Segundo a entidade, o número de suicídios na categoria passou de dois casos registrados em 2020 para seis em 2025, uma alta de 200% em cinco anos. Em 2026, a tendência permanece preocupante, com quatro ocorrências contabilizadas até o momento, segundo a entidade.
Além dos casos fatais, o sindicato afirma que cerca de 20% dos policiais penais em atividade estão afastados do trabalho devido a transtornos psíquicos. Para o presidente da Sinppenal, Fábio Jabá, a situação é consequência de uma combinação de fatores estruturais que afetam o cotidiano dos profissionais.
“Esse quadro é resultado direto de uma combinação de fatores que inclui a superlotação das unidades, o déficit de funcionários, hoje em 39%, e a consequente sobrecarga de trabalho, além da desvalorização por parte do Estado e da natureza desgastante da profissão. E o pior de tudo é que não há uma política abrangente de apoio à saúde dos servidores. Policiais estão morrendo por falta de cuidado”, afirma.
Os dados apresentados pelo sindicato também mostram o aumento da pressão sobre os servidores ao longo dos últimos anos. Em 2013, o sistema prisional paulista contava com 31.847 policiais penais para uma população carcerária de 207 mil pessoas, o que representava uma média de 6,49 presos por agente.
Em maio de 2026, o número de policiais penais caiu para 23.126, enquanto a população prisional chegou a 228 mil custodiados. Com isso, a média passou para 9,85 presos por servidor nas 180 unidades prisionais do estado.
O índice está acima da recomendação do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), que orienta que cada policial penal seja responsável por um grupo de cinco custodiados.
A realidade enfrentada pelos servidores é ilustrada pelo caso de Natália Cristina Raphael Fernandes. Após 16 anos de atuação no sistema prisional, ela busca uma transferência humanitária depois da morte do marido, Marcelo Augusto Raphael Fernandes, também policial penal, que cometeu suicídio em novembro de 2025.
Segundo Natália, continuar trabalhando na mesma unidade onde atuou ao lado do companheiro por mais de 13 anos tornou-se uma experiência traumática. A servidora relatou o caso nas redes sociais e fez um apelo para conseguir a transferência, afirmando enfrentar resistência para deixar o local onde o marido trabalhava.
Para o presidente do Sinppenal, situações como essa revelam a falta de sensibilidade institucional diante de episódios de luto e trauma vividos pelos servidores. Segundo ele, a ausência de acolhimento contribui para o agravamento de quadros de depressão e ansiedade entre os profissionais. “Não somos máquinas, somos humanos”, resume.
Colapso estrutural agrava cenário
O sindicato relaciona o adoecimento dos policiais penais a um contexto mais amplo de dificuldades enfrentadas pelo sistema prisional paulista. Relatório recente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) aponta que uma pessoa morre a cada 19 horas nas unidades prisionais do estado.
Entre 2015 e 2023, foram registradas 4.189 mortes no sistema. Segundo o Sinppenal, a situação é agravada pela falta de profissionais de saúde. O déficit na área chega a 69%, de acordo com dados obtidos no Portal da Transparência.
Das 2.626 vagas destinadas a médicos e enfermeiros, apenas 803 estão ocupadas atualmente.
Em entrevista à imprensa, o presidente do Condepe, Adilson Santiago, afirmou que o sistema prisional paulista atravessa um cenário de colapso. “É um sistema que, se ele continuar da maneira que está, fatalmente nós estaremos aqui falando sobre um aumento expressivo no número de mortes”, declarou.
De acordo com o sindicato, a convivência diária com esse ambiente, somada à falta de suporte institucional, tem tornado o trabalho cada vez mais difícil para os policiais penais.
Diante desse quadro, Fábio Jabá defende a valorização da categoria e a realização de concursos públicos como medidas necessárias para enfrentar a crise.
“A segurança pública não pode ser mantida às custas da vida e da sanidade dos policiais, e o Estado é responsável pela saúde e pelo bem-estar não só dos custodiados, mas também dos servidores. Passou da hora de cuidar de quem cuida da segurança pública”, afirma.
(Com assessoria)

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